Image1\
 

Patrocinadores

- Publicidade -

Contator de Visitas

3649567
Hoje
Ontem
Esta Semana
Ultima Semana
Esse Mês
Mês Passado
Todos os dias
1621
2179
40376
3585809
101087
102309
3649567
Seu IP: 54.144.21.195
Radio e TV Auxiliadora
 

Principal



Porto Belo, SC, 13 de Fevereiro de 2017
 A Fábrica de Santos

Durango Kid

- Vamos ver o trator amarelão?
E todos iam ver: tratava-se da construção da Estrada de Ferro que ligaria Brusque a Itajaí. Ali estavam tratores de todos os tipos e máquinas que nunca se tinha visto antes!
Tinha aquela que cortava as árvores: um trator grande de esteiras com uma grande pá à frente, que ia cortando e derrubando as árvores, abrindo caminho para a nova estrada; tinha aquela que andava com a “barriga” no chão, ajuntava a terra e levava para outro lugar; tinha o “trator amarelão” que era o mais engraçado de todos: este tinha a barriga atrás dele e o motor na frente que se virava de um lado para outro puxando a barriga cheia de barro. Ele era assustador: se contorcia todo, mais parecendo um dragão desengonçado.
Sentávamos à sombra das árvores, à distancia, a observar maravilhados as máquinas barulhentas que iam mudando a paisagem do lugar: Santa Teresinha, em Brusque-SC na década de 1950.
Brincava-se também na lagoa: Usando cachopas de palmeiras, deslizava-se morro abaixo até parar nas águas frescas da lagoa, onde se brincava horas e horas.
Quantas quedas. Quantos tombos... Mas tudo era tão alegre!
O “Lelo” gostava de fazer jangadas com troncos de bananeiras e navegava, oferecendo carona a quem quisesse. Mas para as crianças a Mãe dizia:
- Não vão com o Lelo! É perigoso!
- Não é perigoso não, Mãe, dizia o Lelo, olha como me equilibro... E foi “engolido” pelos tubos que atravessavam a estrada, e foi parar no outro lado, onde já não era mais lagoa e sim um ribeirão! Mas ele “sobreviveu”...
- Apenas alguns arranhões, mas não quero mais não! Não quero mais saber de jangadas.
Também tinha os “pastos”, lugares grandes e arborizados, ou gramados onde viviam os animais do “Seu Alois”, um homem um tanto “sisudo”, “cara de brabo”. Sua mulher era a Dona Maria e a Mãe dizia que Dona Maria era mulher forte, valente, batalhadora, muito honesta e que “Seu Alois”, era também uma pessoa muito legal, de coração bom, mas que ficava muito triste quando as crianças estragavam as árvores quando iam apanhar frutas.
- Podem sim, apanhar o que quiserem – ele dizia – mas se estragarem alguma coisa... E fazia gestos que indicavam palmadas.
Eu pessoalmente evitava ficar por perto dele e corria para longe quando o via chegando. Mas nunca o vi fazer mal a quem quer que fosse. E podia-se correr e brincar à vontade em toda a extensão de suas terras que iam muito longe,” até atrás de todos os morros!”
E as enchentes! Ah! As enchentes! O bairro ficava quase todo debaixo da água...
- Também não é assim – dizia a Mãe – só os lugares mais baixos, mais perto do rio...
- Mãe, na casa da Tia Hilda, só se entra de canoa, pelo sótão!
As enchentes causavam grandes estragos para as famílias e para a cidade, mas nós, crianças, gostávamos de ver os “corajosos” atravessar as ruas, passar ao lado da lagoa que nem se via onde estava, para poderem chegar às suas casas, mais ao alto, ou até por curiosidade, as que vinham de lá para cá, apenas para apreciar a nova paisagem!
Na nossa casa não chegava a água, mas sua posição “privilegiada” permitia observar o panorama “desolador”, segundo os grandes e “encantador”, segundo os pequenos!
Encantador e divertido: os meninos mais velhos nadavam sobre a lagoa e sobre a estrada da frente de nossa casa.
Num determinado momento o Ivo, o mais velho de meus irmãos, percebeu que uma menininha se desgarrara das mãos de sua mamãe, enquanto caminhavam na estrada, e fora arrastada pela correnteza.
Ivo tinha a fama de ser o mais “corajoso” de todos e teve de provar isso: atirou-se à água em busca da menina, conseguindo alcança-la, levando-a até a uma árvore, onde ela se agarrou firmemente. Ivo pediu para os de fora, que mandassem uma vara bem comprida e esta foi levada até ele pela própria correnteza. A menina, segurando a vara, conseguiu chegar até onde os outros pudessem coloca-la a salvo.
Quando a menina foi “salva” a vara ficou muito leve, e deu um salto para cima, desgrudando-se das mãos do Ivo que, em vista da correnteza cada vez mais forte, não pode lutar com a força das águas e perdeu esta “batalha”. A solução foi subir a árvore e aguardar que as aguas baixassem. Do lugar mais alto da árvore, gritava:
- Tirem-me daqui. Tragam uma canoa! Não tem gente de coragem aí?
Gritava e chorava! Ele era grande e corajoso, mas era também uma criança! E criança chora, desespera...
E o Ivo passou a noite na árvore, só conseguindo sair de manhã, quando as águas já haviam baixado.
Todo mundo deu parabéns para o Ivo e os pais da menininha o agradeceram muito. A mamãe do Ivo o chamou de “Meu herói” e o povo mudou o nome da árvore: antes era “Pé de Jacaterom”, agora a árvore passou a chamar-se, “Pé de Ivo!”
Gostávamos também de brincar de “bandido e mocinho”, apresentando cenas que liamos nos gibis da época, e o mocinho mais preferido era o “Durango Kid.”
Preparávamos o lugar: uma barraca feita de bambus e coberta com folhas de palmito. Uma mesa feita de casqueiros, que podíamos pegar dos do “Seu Alois”: As crianças dele também brincavam com a gente.
- O esquema é assim, dizia o Tonho: o Durango Kid possui um documento muito importante que os bandidos querem e eles prendem o Durango e o fazem colocar o papel nesta mesa, obrigando-o a assinar a escritura, passando as terras para os bandidos. Mas a caneta cai no chão e o Durando se abaixa para pegá-la e, ao abaixar-se, joga a mesa contra os bandidos e os prende.
- E quem vai ser o Durango?
- Eu, - disse o Tonho!
- E quem é o bandido maior?
- O Cláudio,-  disse o Tonho!
A brincadeira começou com a correria: os bandidos procurando o mocinho, o mocinho procurando os bandidos...
- Mãos ao alto – disse o Durango – a um dos bandidos.
- Mãos ao alto digo eu, - disse o bandido maior – que estava atrás do Durango. – Larga a arma!
Durango obedeceu e foi levado à barraca, onde colocou a escritura sobre a mesa. Ao se abaixar, segurou a mesa e a jogou contra os bandidos, mas estes, que “ não eram bobos nem nada”, pularam para o lado, e o Durango foi, com mesa e tudo, rolando de morro abaixo e só não se machucou porque a “Dona Ceda” o parou e o segurou no seu colo!
Durango, o “Mocinho” que teve de ser amparado no colo da “Dona Ceda”, ficou muito envergonhado e nunca mais quis saber destas histórias.
E tinha o “Boca Negra”, o nosso cachorro de estimação: andava sempre perto da gente, corria, mostrava os caminhos no meio do mato; mostrava os passarinhos, as galinhas, os lagartos; avisava quando o “Seu Alois” vinha, ao roubarmos goiabas; Brincava o tempo todo com a gente! Nosso Pai gostava muito dele e o tratava muito bem, e nos dizia:
- Os bichos gostam muito da gente e então também devemos gostar muito deles, principalmente do Boca Negra, que sempre nos protege e sempre nos livra dos perigos. O Pai sempre aproveitava a oportunidade para Evangelizar, e um dia percebeu que um de nós, ao tratar o cachorro, atirou a comida e o Boca Negra teve de se esforçar para achar a comida pelo chão! Então o Pai nos contou a historia seguinte:
- Francisco passeava com seus amigos, num lugar muito pobre, e um homem bem pobrezinho, lhe pediu esmola. Francisco, que era um jovem muito rico, jogou algumas moedas para ele, que teve de procurar e procurar pelo chão, e isto era muito difícil, porque além de pobre, ele era cego! Depois, Francisco se arrependeu e foi catar o dinheiro, e ajoelhando-se em frente ao pobre, lhe pediu perdão, enquanto lhe entregava o dinheiro. Vocês também fizeram isso: jogaram comida ao cachorrinho que teve dificuldade de encontrar a comida no meio do pó e da areia. Agora vocês devem ir lá, limpar bem o pratinho dele e colocar a comida bem direitinho...
E assim foi feito. E o mais interessante é que também ficamos de joelhos, porque o prato era no chão!
E o Boca Negra nos agradeceu, balançando muito o rabinho e lambendo o nosso rosto...
 O Pai se emocionou!
Estas lembranças e muitas outras, que me levam aos tempos idos, me fizeram tomar uma atitude:
- Vou a Brusque e passarei um dia inteiro lá. Vou rever os lugares por onde andei, as ruas que pisei, os pastos, as paisagens, a casa ao lado da lagoa, os primos... E realmente fui!
Mas já não tinha o trator amarelão! Não tinha a lagoa, que foi aterrada, e hoje muitas casas estão ali. Não tinham os bandidos e os mocinhos. Não tinha o “Seu Alois nem a Dona Maria, nem a Dona Ceda.
Não tinha o Boca Negra. Não tinha Mamãe e Papai!
E chorei!
E me perguntei: Por que os homens mudam tudo? E refleti: Será que hoje, as minhas crianças encontrariam estes espaços? Será que elas se encontrariam com as paisagens que encantam a vida? Será que eu ensino a elas, a Magia de ser criança?
E chorei de novo!
- E! O correto é voltar a ser criança!
- Mas será que hoje, o mundo me deixaria ser criança?
- Deves tentar!
- Mas, Maria, Mãe do Universo: Eu não sei mais ser criança!
Resolvi falar com os meus parentes e amigos daqueles tempos:
- Onde estão as crianças de hoje?
- Estão por aí – disseram alguns.
E resolvi procura-los: Os netos do “Tanico” estavam na sala, vendo TV, os do “Cile”, no celular, brincando nos jogos; os do “Chico” jogavam “Pokémon” ou sei lá o que; o neto do “Dile”- este era um só – estava sentado, sozinho, em um banco na praça. Me aproximei dele, mas não me viu, não notou a minha presença a princípio, e quando cheguei bem perto, quando quase o toquei, olhou para mim, e percebi que sua cara parecia de um idiota, e em seguida vi a resposta: Estava no “Wats ap”! (É assim que se escreve?) Outros andavam nas ruas, com celulares ou som pendurados nas orelhas!
E nenhum deles tinha amigos!
Chorei de novo!
Meu Deus! Como posso ser criança outra vez?
Mãe Maria, por favor, ensina as crianças a serem crianças! Amém?


Cláudio Heckert (Confidente de Nossa Senhora)

Fonte: Movimento Salvai Almas
www.salvaialmas.com.br