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As almas - No Purgatório
O Manuscrito do Purgatório
(Mons. Ascânio Brandão)

No purgatório se ama?
Re:_Sim, mas é um amor de reparação, e se nós tivéssemos amado á Deus como deveríamos na terra, não seríamos tão numerosas e não haveria tantas almas no lugar de expiação!

As promessas feitas em favor daqueles que rezam o Terço de S. Miguel são verdadeiras?
Re:_As promessas são reais, mas não se deve acreditar que as pessoas que rezam o Terço por rotina e sem o procurar fazer com perfeição, sejam logo tiradas do Purgatório. Seria um erro. São Miguel faz muito mais ainda do que promete, mas os que estão condenados a um longo Purgatório, não os retira assim tão depressa!

É verdade que a lembrança da devoção ao Santo alivia muito as almas, mas que sejam de todo libertadas do Purgatório, não. Eu que o diga, eu posso bem servir de exemplo!...A libertação imediata só a terão as pessoas que trabalharam corajosamente para a sua perfeição, e que tiveram pouca coisa a expiar no Purgatório.
A França é bem culpada, infelizmente ela não está só!
Neste momento não há um reino cristão que não procure aberta ou surdamente expulsar Deus do seu seio. As sociedades secretas e o diabo fomentam estas revoltas. É agora a hora do príncipe das trevas. Deus há de mostrar que só Ele é o Senhor único! Talvez não seja feito isso com doçura, e fará sentir o Seu poder, mas nos próprios castigos Jesus é misericordioso.
São Miguel há de intervir na luta pessoal da Igreja. Ele é o Chefe desta Igreja tão perseguida, mas que não será aniquilada, como pensam os maus. Quando há de intervir S. Miguel, eu não o sei. É preciso rezar muito nesta intenção, invocar o Arcanjo lembrando-lhe todos os títulos que tem, pedir-lhe a  intercessão junto d’Aquele sobre o qual tem tanto poder.
Que não se esqueçam da Santíssima Virgem! A França é o seu reino privilegiado. Ela o salvará. Fazem muito bem em pedir, por toda parte,  Rosários e Terços. E esta oração é a mais eficaz nas necessidades presentes.
No Purgatório nós não recebemos as indulgências que nos são aplicadas, senão á maneira de sufrágio e como Deus o permite, e segundo as Suas divinas disposições. É verdade que não temos apego ao pecado mas, não estamos sob o reino da misericórdia, mas sob o império da Justiça, e desta justiça receberemos o que Deus quer que nos seja aplicado.

Estais aflita por ver que Deus é insultado em Paris, mas estas pessoas não sabem o que fazem, e Jesus se sente mais insultado e ofendido com os pecados que cometem as almas que Lhe são consagradas e não são o que deveriam ser, do que com as injúrias daqueles que não são Seus amigos.
Ó, se vos fosse dado compreender na terra como Jesus é tratado com indiferença e desprezo neste mundo! E não só pelo mundo.  Ele é insultado, ridicularizado, mesmo por aqueles que O deveriam amar. É assim que se encontra indiferença nas Comunidades entre religiosos e religiosas, sua gente escolhida!
Lá, onde deveria ser tratado como amigo, como Pai, como Esposo, O consideram e O tratam mais como um estranho. Esta indiferença se encontra também no clero. Jesus é tratado como de igual para igual.. Os que deveriam tremer pensando na Augusta Missão que receberam, a desempenham com indiferença e aborrecimento!
Quantos possuem o espírito interior? Um número muito pequeno. São numerosos no Purgatório os Padres que expiam a sua vida sem amor e sua indiferença.
É preciso que eles expiem pelo fogo e em torturas de todas as formas as suas negligências. Eis o grande sofrimento do Coração de Jesus: a ingratidão dos Seus. E, no entanto, o Divino Coração está todo transbordando de amor e só quer difundi-Lo.
Jesus quer encontrar algumas almas mortas para si mesmas. Jesus derramará nelas ondas de amor mais do que já não o fez por ninguém neste mundo. Ó , como Jesus, como a Sua Misericórdia, como o Seu Amor são poucos conhecidos nesse mundo!
Procura-se conhecer tudo, aprofundar-se em tudo, exceto no que trás a felicidade, a única coisa verdadeira...Que tristeza!
Os sofrimentos do corpo e do coração são a herança dos amigos de Jesus enquanto estão neste mundo. Quanto mais Jesus tem amor a uma alma, tanto mais a faz participante das dores que Ele sofreu aqui por nosso amor. Feliz a alma assim privilegiada! Quantos méritos não pode adquirir! É o caminho mais curto para chegar ao Céu. Não tenhais medo do sofrimento, ao invés, amai-o, porque ele nos aproxima mais perto d’Aquele que amamos.
Já não vos disse um dia que o amor tornará doce o que vos parece agora tão amargo porque não amais bastante?
O meio mais infalível para chegar depressa á união com Jesus, é o amor, mas o amor unido ao sofrimento.
Se soubésseis como o sofrimento é bom para a alma! São as mais doces carícias que  o Divino Esposo faz àquela que ama e com quem quer se unir intimamente. Jesus envia á alma que ama, sofrimento sobre sofrimento, penas sobre penas a fim de desapegá-la de tudo que a cerca...Então pode lhe falar ao coração.
Na morte vereis que nunca se fez demais. Sede generosa e não vos escuteis. Vede o fim para o qual vos chama Jesus: a santidade, o puro  amor, e depois, caminhai sempre sem olhar para trás.

A cruz, as grandes cruzes, as que trituram o coração, são a herança dos amigos de Deus. Vós queixastes nestes dias á Jesus, porque Ele vos enviou muito sofrimento durante este ano? É verdade, mas porque achais tão pesadas as cruzes? É que não O amais ainda bastante. As cruzes ainda não se acabaram. As que tivestes até aqui, são apenas o prelúdio do que vos espera. Não vos disse que teríeis sofrimentos do corpo e do espírito, e ás vezes os dois juntos? Não há santidade sem sofrimento. Entretanto, quando deixardes que a graça possa agir livremente e que Jesus possua vossa vontade , e seja o Mestre absoluto de tudo em vós, então as cruzes por mais pesadas que sejam,  não hão de pesar mais. O amor absorverá tudo. Até lá, porém, sofrereis muito,  porque não é num instante que a alma chega assim a se desapegar de todas as coisas para não agir senão por amor. Jesus vê com muito prazer os vossos esforços.
Ó, se Jesus fosse mais conhecido na terra! Mas é tão esquecido! Pelo menos vós, amai-O, crescei sempre neste amor para agradá-Lo. Trabalhai sem descanso para chegardes até lá onde Ele vos quer ver.
Ai! Quantas vidas parecem cheias de boas obras e no entanto, na hora da morte estarão vazias! Se soubésseis quão poucas são as pessoas que agem só por Deus e que praticam seus atos só por Deus! Na morte então, ai! Quando a gente não está mais cego, quanto arrependimento! Ai! Se refletissem algumas vezes no que é a eternidade! Que é esta vida comparada com este dia sem noite para os eleitos, e esta noite que não há de ter fim dos condenados! Ama-se tantas coisas na terra, apegam-se a tudo neste mundo exceto a Aquele que unicamente deveria merecer nossa afeição e ao qual recusamos nosso amor!
Jesus nos tabernáculos espera os corações que O amam, e não os encontra...

Há muitos protestantes salvos?
Re:_Pela Misericórdia de Deus, um certo número de protestantes se salva, mas o purgatório deles é longo e rigoroso. Eles não abusaram da graça é verdade, como muitos católicos, mas não tiveram as graças insignes dos Sacramentos e outros socorros da verdadeira religião, o que faz com que a sua expiação se prolongue por muito tempo no Purgatório.
Eu recebo mais alivio de uma das ações de graças feita com uma grande união á Jesus, do que de uma oração vocal. O que Deus mais ouve? Tudo que é feito com espirito interior. Quanto mais íntima é a união de uma alma com Deus, mais esta alma é ouvida. Uma alma intimamente unida á Jesus, é dona do Seu Coração Divino. Deveis procurar sempre esta união que Jesus espera  há muito tempo de  vós. Se quereis agradá-Lo, eis o único meio: aproximar-vos sempre mais do Seu Coração, por uma grande atenção aos menores desejos da Sua vontade Santíssima. É preciso que Ele vos vire e revire como bem queira, sem nunca encontrar resistência de vossa parte. Então haveis de ver e compreender Sua bondade!
Procurai trabalhar atentamente só por Deus. Não procureis outro para testemunha de vossas ações.
Ai! Se soubessem o que eu sofro! Rezai por mim. Sofro por toda parte e muito.
Ó meu Deus, como Sois misericordioso! Ai! Ninguém pode imaginar o que seja o Purgatório! É preciso ser muito boa e ter compaixão das almas!
Há um grande espaço entre o Purgatório e o Céu! Ás vezes, ouvimos um eco das alegrias que desfrutam os bem aventurados no Céu! Todavia, é como que um castigo para nós, porque nos dá um grande desejo de ver á Deus. No Céu a luz pura...no Purgatório,  profundas trevas...

As almas muito culpadas não veem a Santíssima Virgem.
Quando se liberta uma alma do Purgatório é uma grande alegria para Deus. Eu terei um pouco de alivio no dia de Páscoa.
Fazeis muito bem em rezar e mandar rezar para S. Miguel. A gente é muito feliz na hora da morte por ter confiança em alguns Santos, para que sejam nossos protetores junto de Deus naquele terrível momento.
Sim, nós vemos algumas vezes a São José, mas não tantas vezes como a N. Senhora.
O Purgatório das religiosas é mais longo e rigoroso que o das pessoas do mundo, porque abusaram mais das graças.

Deus quer que não penseis senão Nele, que não vivais senão para Ele, e não sonheis senão com Ele, não vos volteis senão para Ele.
A Eucaristia deve ser para vós um imã que vos atraia sempre cada vez mais. A Eucaristia, numa palavra, deve ser o móvel de toda a vossa vida.
Fazei cada manhã uma oração para adorar a Nosso Senhor em todas as Igrejas onde  se acha abandonado.
Transportai-vos então pelo pensamento para essas Igrejas e dizei á Jesus quanto O amais e quereis reparar o abandono em que Ele se encontra. Renovai essa intenção muitas vezes no dia. Dareis um grande prazer á Jesus.
Vêde como Jesus está só! Neste momento poderia ter Ele aqui mais gente se houvesse um pouco mais de boa vontade. Todavia, que indiferença até entre as almas religiosas! Nosso Senhor é muito sensível no Santíssimo Sacramento! Pelo menos, então,  amai-O pelas almas injustas, e o bom Jesus sentir-se-á confortado e consolado neste desprezo.
Tivestes um bom pensamento de me convidar no encerramento do retiro para adorar Jesus presente em vosso coração durante a ação de graças depois da Comunhão. Se já o tivésseis feito até agora, eu teria tido mais alivio. Fazei também assim antes de vossas orações.  Depois ofereceis um pouco do vosso trabalho por mim, eu tenho um desejo tão grande de ver á Deus.

Qual é o melhor meio de glorificar á S. Miguel?
Re:_O meio mais eficaz de o glorificar no céu e na terra é recomendar quanto possível a devoção ás almas do Purgatório e fazer conhecer a grande missão que Ele tem junto das almas sofredoras. Ele é o encarregado de levá-las do lugar de expiação e introduzi-las depois da satisfação,  no Céu, morada eterna. Cada vez que uma alma vem aumentar o número dos eleitos Deus é glorificado por ela e esta glória de certo modo reflete sobre o glorioso ministro do Céu. É uma honra para ele apresentar ao Senhor das almas que irão cantar as infinitas misericórdias e unir seu reconhecimento aos dos eleitos por toda eternidade. Eu não posso vos fazer compreender todo o amor que o celeste Arcanjo tem por Seu Divino Mestre, e o amor que por sua vez Deus tem por S. Miguel e bem como a grande piedade que S. Miguel tem de nós. Ele nos dá coragem nos sofrimento quando nos fala do Céu. Dizei ao Padre que se ele quiser dar um grande prazer a S. Miguel, recomende muito a devoção às almas do Purgatório. Não se pensa muito nisto neste mundo! Quando se perdem os parentes e amigos, fazem algumas orações, choram durante alguns dias, depois...tudo se acaba! As Almas ficam abandonadas! É verdade que elas merecem muito porque não rezaram pelos mortos quando na terra, e o Divino Juiz só nos dá no outro mundo o que fazemos neste. As pessoas que deixaram esquecidas as almas do Purgatório,  serão esquecidas também, mas se lhes tivessem  feito conhecer o que é o Purgatório, talvez elas tivessem procedido de outra maneira , de modo muito diferente.
Quando Deus  o permite, podemos nos comunicar diretamente com o Arcanjo , á maneira dos espíritos e como as almas se comunicam entre si.

Como se festeja S. Miguel no Purgatório?
Re:_No dia de sua festa, S. Miguel vem ao Purgatório e volta para o Céu com muitas almas, principalmente as almas que lhe tiveram devoção.

Que glória recebe S. Miguel da sua festa na terra?
Re:_Quando se faz a festa de um Santo na terra, ele recebe no Céu uma glória acidental. Ainda mesmo que não o festejem na terra, em memória de alguma ação especial heroica que praticou neste mundo, ou da glória que deu á Deus em alguma ocasião, nesta época, recebe no Céu uma recompensa especial que consiste numa maior glória acidental, junta com a que lhe dão na terra.
A glória acidental que recebe S. Miguel é superior á de todos os outros santos, porque esta glória de que vos falo, é proporcionada á grandeza do mérito daquele que a recebe, como também ao valor da ação que mereceu esta recompensa.
Tudo passa e passa depressa! Não tenhamos tanta preocupação pelas coisas que um dia hão de se acabar! Olhemos sempre o que nunca mais se há de acabar. Por nossas ações santas e  unidas á Jesus, embelezemos nosso trono no Céu. Façamos o nosso trono mais alto, alguns degraus mais próximo d’Aquele que havemos de contemplar e amar por toda a eternidade. Eis o que deve ser a vossa ocupação na terra.
Vou procurar fazer com que entendais quanto possível o que é o Céu. Festas e sempre novas, que se sucedem sem interrupção, uma felicidade sempre nova e que a gente nunca sentiu. É uma torrente de alegria que transborda sem cessar sobre os eleitos. O Céu é principalmente Deus, Deus amado, sentido, provado, é uma saciedade de Deus sem se poder saciar nunca!
Quanto mais a alma amou a Deus na terra, tanto mais atinge ao cume da perfeição, tanto mais compreende o Céu!
JESUS é a verdadeira alegria da terra e a eterna alegria dos Céus!

Quando levamos nossos mortos queridos à sepultura, costumamos dizer: descansaram!... Sim, descansaram das fadigas e lutas desta vida que é um combate no dizer expressivo de Jó: "militia est vita hominis super terram - a vida do homem neste mundo é um combate. Porém, descansaram já no seio de Deus? Estão já no eterno repouso no céu? Ai! é tão grande a fragilidade humana, que bem poucos, raríssimos, são os que deixam esta vida e entram logo no céu. Os mortos entram, sim, na paz do Senhor, mas na paz da justiça, geralmente na paz da expiação do purgatório. O purgatório é o lugar da paz. Lá habita a doce paz dos eleitos, dos que resignados e cheios de amor e de dor cumprem a sentença e se purificam à espera do céu. Já se chamou ao purgatório, e com razão, o vestíbulo do paraíso. É o pórtico da eternidade bem-aventurada.
   Sim, nossos mortos descansaram, mas sofrem, e sofrem muito mais do que tudo quanto padeceram nesta vida.... Não digamos comodamente: estão no céu! estão no céu!. Com isto padecem as almas do purgatório. A Igreja, pelas lições impressionantes da sua liturgia quer que associemos ao pensamento da morte o da eternidade. E diz o prefácio da Missa dos defuntos: se a condição da nossa morte nos entristece, console-nos a promessa da imortalidade futura.
   E depois, quantas vezes gemendo sobre nós, clama: Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno! Dai-lhes o descanso eterno! Implora misericórdia para nossa pobre alma, lembra o juízo tremendo de Deus, e quer nos aliviar nas chamas expiadoras do purgatório. Nunca meditemos na morte sem meditarmos no purgatório. É este o sentido da liturgia nos funerais.
   Estas preces tocantes e belas, estes ritos impressionantes e cheios de majestade, lembram-nos a nossa dignidade de cristãos, a dignidade de nosso corpo, sacrário de uma alma imortal e templo do Espírito Santo, destinado a ressuscitar um dia e comparecer no tribunal do juízo. Lembram-nos a triste condição de uma pobre alma ao comparecer diante de Deus, e implora misericórdia ao Juíz dos vivos e dos mortos. Sim, não podemos, como cristãos e filhos da Igreja, separar o pensamento da morte do da eternidade. E como sabemos qual é a justiça de Deus, não deixaremos de considerar que após a morte, aí vem o purgatório para quase todos nós, e que lá na expiação, há muitas almas queridas pelas quais somos obrigados a orar por dever de justiça e de caridade. Eis, pois, repito, o sentido da meditação da morte e da liturgia dos mortos. Não é um pensamento de morte, não estão vendo? É ao invés um pensamento de vida. Vita mutatur non tollitur, diz o prefácio dos defuntos. A vida não foi tirada, nem desapareceu, mudou-se apenas. De terrena passou a ser eterna. Eis como o cristão pensa na morte.
   É certo, diz um autor, a ingratidão não pode existir no purgatório. Aquelas benditas almas hão de proteger e socorrer os que as aliviam nesta vida com seus sufrágios...
   São Filipe Neri era devotíssimo das almas e cheio de caridade, nunca deixou de socorrê-las em toda sua vida. Muitas vezes lhe apareceram para lhe testemunhar uma gratidão profunda. Depois da morte do santo, um dos seus confrades o viu na glória do céu, cercado de uma multidão de bem-aventurados no esplendor da glória eterna. - Que corte é esta que vos cerca? pergunta o padre. - São as almas que livrei do purgatório e que salvei. Vieram me acompanhar na glória. (...) Na morte e depois da morte, seremos recompensados pelo que tivermos feito em sufrágio da benditas almas do purgatório. (...) A pobre criatura humana tão miserável nem sempre ao deixar a terra, é bastante pura e santa e merece a presença do Senhor, a visão beatífica. E também como há de ser condenada às chamas eternas a alma que, embora não tivesse pago a dívida dos seus enormes pecados na penitência desta vida, não é, todavia, merecedora do castigo eterno? Há de entrar no Céu? Não. Lá só se encontram os santos e os puros de coração. E que pureza angélica requer a divina justiça para o céu! Há, então, de ser condenada ao inferno? Oh!, também, não. A misericórdia divina jamais o permitiria. Faltas veniais, imperfeições, falta de penitência dos pecados graves, tudo isto, é bem verdade, exige castigo e sem a penitência não se há de entrar no céu. Porém, a justiça e a misericórdia divina se uniram - Justitia et pax osculatae sunt. - O pecado será castigado, a dívida exigida pela justiça será paga até o último seitil, mas a infinita misericórdia há de salvar a pobre alma culpada, há de lhe abrir um dia as portas do céu.
   Existe um purgatório! Não é consoladora e racional a doutrina da Igreja neste dogma?
   Sobre o Purgatório, há só dois pontos, perfeita e claramente definidos pela Igreja, e que, portanto, constituem objeto de nossa Fé: 1) - Existe um lugar de purificação temporária para as almas justificadas que saem desta vida sem completa penitência dos seus pecados. 2) Os sufrágios dos fiéis e especialmente o santo Sacrifício da Missa são úteis às almas.
   Já nos primeiros séculos, segundo o testemunho de Tertuliano e dos Santos Padres e os monumentos, os cristãos, sufragavam os mortos com orações, e pelo santo Sacrifício da Missa celebrado sobre as sepulturas. Nas inscrições, nos epitáfios se encontram nas catacumbas belas preces pelos mortos. No Século IV em 302, Santa Perpétua nos conta uma visão do Purgatório. Diz ela:
   "Estávamos em oração na prisão, depois da sentença que nos condenava a sermos expostas às feras, e de repente chamei por Demócrito. Era um meu irmão segundo a carne. Morrera com um câncer na face. A lembrança da sua triste sorte me afligia. Fiquei admirada de me ter vindo à lembrança este irmão e me pus a rezar por ele com todo fervor, gemendo diante de Deus. Na noite seguinte, tive uma visão na qual vi Demócrito sair de um lugar tenebroso no qual se acham muitas pessoas. Estava abatido e pálido, com a úlcera que o levou à sepultura. Tinha uma grande sede. Junto de mim estava uma bacia com água, mas ele em vão tentava beber e não conseguia. Conheci que meu irmão estava sofrendo e era preciso rezar por ele. Pedi por ele a noite com muitas lágrimas, para que fosse libertado. Alguns dias depois tive outra visão, na qual Demócrito me apareceu todo brando, brilhante e belo, e se inclinou e bebeu à vontade a água que antes não pôde tirar. Conheci por isto que estava livre do suplício".
   Eis um belo trecho que vem provar a antiguidade da crença do purgatório.
   Santo Agostinho reconhece a autenticidade das Atas de Santa Perpétua e nota que o irmãozinho da Santa deveria ter cometido alguma falta depois do batismo. (...).
   Vemos tantos entes queridos que deixaram esta vida, é verdade, em boas disposições, mas como eram culpados de certas faltas e não haviam feito uma penitência devida, receamos às vezes pela sua salvação. Todavia nos diz o coração que não podiam se perder. Eram bons, tinham qualidades apreciáveis, foram talvez caridosos e fizeram algum bem nesta vida. Admitir que esteja no céu depois de tantas faltas e defeitos e ausência de penitência, não o podemos. Dizer que estejam condenados, é muito duro, e, apesar de tudo, como poderiam ter se perdido almas tão caridosas e boas e que fizeram algum bem neste mundo? A ideia do purgatório se impõe necessariamente à nossa razão ou, antes, se impõe à nossa fé. (...).
   Havemos de chorar nossos mortos e a religião não nos pode proibir as lágrimas tão justas, quando sentimos nosso coração ferido pelo golpe duro da saudade. Todavia, havemos de chorar cristãmente nossos defuntos queridos. É mister lembrar-nos deles mais com orações e sufrágios do que com lágrimas estéreis. O pensamento do purgatório é um consolo. Sabemos que podemos ainda auxiliar, valer e socorrer nossos entes queridos. É bem possível que padeçam no purgatório.
   A Religião de Nosso Senhor Jesus Cristo não proíbe que choremos os nossos mortos queridos. Podemos, pois, render a estes o tributo de nossas lágrimas e de nossa saudades. Com esta pobre natureza, como ficarmos insensíveis ante a morte de um ente estremecido? Como nos custa ver arrebatados pela morte os entes com quem convivemos, nosso pai, nossa mãe, nosso filho, nosso irmão, nosso amigo"... A religião, se bem que nos ensine a ser fortes na dor e a meditar  na Paixão de Jesus Cristo, não nos veda aquelas lágrimas e saudades. Ela não tem o estoicismo pagão, estúpido e anti-natural. Pois, Jesus não chorou na sepultura de Lázaro? Não choraram, na Paixão, Maria Madalena e as Santas mulheres? A religião nos permite chorar do mesmo modo os nossos mortos. Quer apenas que o façamos, não como os pagãos, desesperados e desiludidos, mas como quem tem esperança na vida eterna e crê na imortalidade. Choremos a separação dolorosa, mas com a doce esperança de que, um dia, numa pátria melhor, onde não haverá nem luto, nem dor, ou sofrimento de qualquer espécie, nem separação, tornaremos a ver todos aqueles que amamos aqui na terra. Como esta esperança consola! O cristão não deve dizer com desespero, ante o cadáver gelado de um ente querido: - "Nunca mais te verei" Adeus para sempre!" Não! Embora em pranto, suas palavras devem ser estas: - "Até ao céu! Lá nos tornaremos a ver e seremos para sempre felizes".
   O dogma do purgatório, tão em harmonia com nosso coração, nos diz que podemos ainda ajudar nossos mortos queridos para podermos dizer-lhes: até o céu!.
   Deus revelou muitas vezes à Bem-aventurada Ana Taigi a sorte das almas do purgatório. Ela pedia continuamente pelas pobres almas, num misterioso sol que sempre lhe aparecia. Foi Ana Taigi uma grande mística do século XIX. Em 30 de maio de 1920, S. S. Bento XV declarava bem-aventurada a humilde e pobre mãe de família, que durante tanto tempo chamou a admiração de Roma e do mundo com tantos prodígios sobrenaturais. A beata Ana Taigi, romana de nascimento, via os acontecimentos futuros e a sorte dos mortos.
   Um homem, conhecido de Ana, morreu, e ela o viu nas chamas do purgatório, salvo do inferno pela divina Misericórdia, porque socorreu um pobre que o importunava muito pedindo esmola. Viu um conde cuja vida se passou em delícias e divertimentos, mas que na hora da morte teve um grande arrependimento e se salvou, mas deveria sofrer no purgatório tormentos incríveis tanto tempo quanto passou neste mundo sem se preocupar com a penitência e com a salvação eterna.
  Viu homens de grande virtude sofrendo porque se deixaram levar pela vaidade e amor próprio, muito apegados aos elogios e à amizade dos grandes da terra.
   Um dia Nosso Senhor lhe disse: levanta-te e reza, meu Vigário na terra está na hora de vir me prestar contas. Ana Taigi sufragou a alma do Papa e depois o viu como um rubi ainda não de todo brilhante, pois, lhe faltava se purificar mais.
   Faleceu em Roma o cardeal Dória, que deixou grande fortuna, e naturalmente celebraram-se por sua alma centenas de Missas. Foi revelado à beata Ana Taigi que as missas celebradas por alma do cardeal eram aproveitadas para as almas dos pobrezinhos abandonados e que não tinham quem mandasse celebrar por eles.
   Via-se assim a divina Justiça que não olha a riqueza nem as possibilidades dos ricos em arranjar sufrágios, com descuido às vezes neste mundo da verdadeira penitência.
   Viu Ana no purgatório um sacerdote muito estimado por suas virtudes e sobretudo pelas brilhantes pregações que fazia e o tornavam admirado de todos. Sofria muito este pobre padre. Foi revelado à beata Ana que ele expiava a falta de procurar com muito empenho a fama de bom pregador e um pouco de vaidade ao pregar a palavra de Deus, sobretudo nas complacências com os elogios.
   Viu dois religiosos muito santos no purgatório, em sofrimentos duros. Um deles expiava o seu apego ao próprio juízo e pouca submissão ao modo de ver de outros, e outro a dissipação, a falta de recolhimento e piedade no exercício do ministério sacerdotal.
   Enfim, a beata Ana trouxe com a sua bela e impressionante mensagem do sobrenatural no século XIX, muitas luzes sobre o purgatório e impressionantes lições da Justiça de Deus, e também não há dúvida, da Misericórdia que salva tantas almas pelas chamas expiadoras do purgatório.